
Cinema polêmico, irônico e filosófico (Revista Se7e,
outubro/2003)
Este mês vou falar da obra de dois diretores: Neil La
Bute e Richard Linklater. Nem todos os filmes me agradam,
mas reconheço o talento deles atrás das câmeras.
O primeiro é mais polêmico e irônico e
o segundo é filosófico, com seus personagens
questionadores e em constante contradição com
a realidade.
Na Companhia dos Homens, de La Bute, provocou as feministas
com a história de um arrogante misógino que
convence um amigo a ambos seduzirem a tímida secretária
muda. Depois, ele decidiu explorar a falta de comunicabilidade
(e de ética) entre jovens casais norte-americanos em
Seus Vizinhos, Seus Amigos, Seus Amores. Logo após,
emendou com a simpática comédia de humor negro
A Enfermeira Betty. Renée Zellweger assiste à
morte de seu marido durante um assalto em sua casa, cometido
pela dupla Chris Rock e Morgan Freeman. Assustada, decide
“viver” o seu sonho: acredita que é a noiva
do personagem da novela de televisão interpretado por
Greg Kinnear e se muda para Los Angeles atrás dele.
Persuasão, sua obra mais recente a chegar ao Brasil,
pode surpreender os seus fãs, mas a surpresa é
agradável. O filme conta uma história de amor
passada na Inglaterra em dois períodos: presente e
passado vitoriano. No tempo atual, um estudante de letras
americano (Aaron Eckhart) se junta a uma professora inglesa
de literatura (Gwyneth Paltrow) na busca de vestígios
de um romance secreto entre dois célebres poetas (fictícios)
do século XVIII, Randolph Henry Ash (Jeremy Northam)
e Christabel LaMotte (Jennifer Ehle). A história intercala
os dois romances, mostrando os tórridos encontros entre
o poeta casado e a poetisa lésbica no passado e a leve
troca de olhares entre os pesquisadores modernos. O final
é previsível, mas é um ótimo programa
para ser assistido a dois.
Jovens, Loucos e Rebeldes, de Linklater, mostra o cotidiano
de adolescentes de pequena cidade norte-americana no fim dos
anos 70. Bem fraquinho, vale somente para ver, em pequenas
participações, os futuros astros Renée
Zellweger e Mattew McConaughey. Já Suburbia é
mais contundente em sua crítica à falta de alternativas
e valores da juventude dos anos 90. É baseado em peça
de sucesso da Broadway, que teve versão brasileira
também.
Antes do Amanhecer é uma boa história de amor
passada em um único dia de Viena, com diálogos
realistas entre uma francesa e um norte-americano. Waking
Life mostra o drama de um jovem que não sabe mais distinguir
entre sonho e realidade. O diferencial do filme é a
ótima animação, feita em cima da movimentação
dos atores reais. O papo-cabeça dos personagens às
vezes parece eterno, mas vale a pena agüentar até
o final. Recentemente vi na TV o despretensioso Tape, vídeo
digital com Ethan Hawke e Robert Sean Leonard. Os atores interpretam
dois ex-colegas de colégio que se reencontram dez anos
depois e relembram momentos dolorosos, principalmente o episódio
que envolve a namoradinha de um deles (Uma Thurman). Parece
que o diretor os escolheu de propósito, para forçar
o público a lembrar que eles já foram colegas
de quarto no “clássico juvenil” Sociedade
dos Poetas Mortos. Além disso, Hawke é um de
seus atores favoritos – ele é o protagonista
de Antes do Amanhecer e aparece também em Waking Life.
Raquel Maranhão Sá
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